Depois de mais de 20 anos ensinando Literatura, Gabriela Martínez decidiu aprender a programar. O que começou como a necessidade de transformar suas próprias ideias educacionais em ferramentas digitais acabou levando-a de Rocha à fronteira entre Rivera e Sant’Ana do Livramento e à conquista de um novo diploma: Tecnóloga em Análise e Desenvolvimento de Sistemas.
Após cursar uma pós-graduação na UTEC sobre Design de Ambientes de Aprendizagem, Gabriela sentiu a necessidade de dar um passo além: “Eu elaborava ideias didáticas, mas não tinha as ferramentas para criá-las de forma eficaz; precisava de um desenvolvedor. Foi aí que decidi que tinha de aprender a programar”, conta.
Em plena pandemia, ela aproveitou a modalidade virtual do curso de Tecnologia em Análise e Desenvolvimento de Sistemas para se matricular. O desafio não foi isento de dúvidas e receios: “Fazia 38 anos que eu não via matemática, e esse era o meu maior medo. Mas uma colega me incentivou e disse: 'Você consegue; eu te ajudo se for preciso'. E eu consegui”, relembra com orgulho.
Quando o curso retornou ao formato presencial, Gabriela solicitou transferência de trabalho e mudou-se para a região de fronteira para continuar os estudos. Conseguiu concluir o curso sem abrir mão de suas horas de docência: “Fiz o curso trabalhando; é totalmente possível conciliar os dois”, destaca. O horário das aulas do curso tecnológico, das 19h às 23h, favorece justamente essa compatibilidade.
Como trabalho de conclusão de curso, Gabriela desenvolveu uma solução tecnológica real: um chatbot de WhatsApp para a avaliação automática da fluência de leitura.
O sistema combina inteligência artificial — por meio da ferramenta de transcrição de voz Whisper v3 Small — e análise de áudio via Praat, um software especializado em pesquisa fonética. O objetivo dessa solução é medir quão bem e de que forma os alunos leem. Para isso, o chatbot calcula um índice de fluência baseado em três pilares: a prosódia (ritmo e entonação), com peso de 51,3%; a precisão, com 32,9%; e a velocidade, com 15,6%.
Seu projeto foi aprovado com sucesso nos primeiros testes, realizados por meio de um projeto-piloto no próprio IFSul. Participaram 36 usuários em um contexto de fronteira bilíngue, e o sistema demonstrou alta eficiência ao processar áudios de 30 segundos em apenas 35 segundos, utilizando computadores comuns. Os resultados foram contundentes: 65,4% dos participantes melhoraram sua leitura de forma objetiva após repetirem o exercício.
“Ainda tenho muito a trabalhar, mas o objetivo é democratizar o acesso à avaliação da fluência de leitura em contextos educacionais com recursos limitados”, explica Gabriela. Para ela, essa conquista resume o espírito do curso: “O mais importante é tornar-se uma pessoa que identifica problemas e implementa soluções”.
A proposta educacional também conta com um importante componente de integração profissional, que inclui visitas técnicas, práticas em projetos reais e estágios em empresas parceiras.
Além disso, oferece uma experiência binacional única ao integrar, de forma equitativa, estudantes do Uruguai e do Brasil, o que promove naturalmente um intercâmbio cultural.
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